Deja-Vu

outubro 22, 2012  |   Contos   |     |   0 Comment

MARIZA NONOHAY

- As estranhas emoções que nos assomam ao entrarmos em algum local, sentirmos determinados perfumes ou vivenciarmos situações, não podem estar circunscritos a curta memória material desta vida, diz Tarif ao seu acompanhante em tom conclusivo. Está frente a uma pintura representando beduínos em uma tempestade de areia, datada de 1798 que o fizera sentir profunda nostalgia.

-O Louvre é a história de grande parte do mundo, pintada. Se soubermos ler as obras de arte, elas nos contarão quando aconteceram, pois cada idade tem a sua arte e a sua literatura, de conformidade com a necessidade da época, comenta Tarif, enquanto senta num banco do vão central do Museu do Louvre,na companhia do amigo Aghar.

Era Janeiro e Maria Cirandella, apesar do frio, aproveitava as férias para embeber-se em arte. Sentada no mesmo vão, próxima de Tarif, consegue entender o espanhol arrastado que ele utilizara e pensa que não é a única a sentir esta sensação. Paris, por exemplo. Antes de conhecê-lo, sentia uma saudade nostálgica e, desde que aqui veio, há mais de vinte anos, reconhece lugares e anda pela cidade inteira sentindo-se como no pátio de sua casa. Seu olhar, vago pelo pensamento, foi direcionado para Tarif. Ao vê-la ele pára, levanta-se e caminha em sua direção. Olha-a fixamente, balbuciando alguma coisa que ela não entende. Aproxima-se tanto que ela sente a sua respiração ofegante.

Maria levanta-se e dá um passo atrás, para entender o que estava acontecendo: Amirah, Amirah! Ouve chamá-la e sacode a cabeça dizendo:

-Não! Sou Maria, MA-RI-A.!

Sua voz traz Tarif de volta. Ele pede desculpas pelo ímpeto, apresenta seu acompanhante e relata que, pela segunda vez, naquele dia, tinha tido uma experiência incomum: – um déjà-vu. O primeiro, em frente ao quadro que representa tempestade de areia e, o segundo, no momento em que a vi, pois é era muito parecida com uma pessoa que foi muito importante na minha vida.

Maria, recuperada do susto, apresenta-se e conta que isto também acontecia com ela e, em Paris, muito mais, motivo pelo qual estava lá sempre que podia.

Tarif comenta que sentiu sufocar-se na frente do quadro com a tempestade de areia e, em seguida, ao vê-la sentada retorna a uma cena que já lhe acontecera várias vezes, naquele mesmo local. Amirah lhe aguardava impassível, enquanto ele repetia as visitas ao Museu. Isto ocorrera há quinze anos.

– Assustei-a, não foi? Gostaria de saber mais sobre você… Maria é quase o contrário de Amirah. Este nome em árabe significa princesa, líder, diz Tarif.

– E o que quer dizer Tarif? Pergunta vacilante Maria.

– Bem, quer dizer, raro, incomum. Mas, falando de você, está apenas passeando ou?

– Tarif, seu nome tem um belo significado. Estou passeando e me enriquecendo, por que também trabalho com arte.

– Se gosta de arte, deves saber sobre o outro Museu do Louvre que está sendo construído em Abu Dabhi para inauguração em 2014.

– Soube que iriam construir, mas não com esta rapidez.

– Sou um dos contratados pelo Conselho de Artes dos Emirados Árabes Unidos para ajudar a organizar o Museu do Louvre de lá. Moro aqui e faço o trabalho através do Institut Du monde árabe, onde leciono. Sou professor de História da Arte. Por aqui estou todos os dias durante algumas horas.

– É um trabalho maravilhoso o seu, diz Maria.

-Sabia que o Louvre foi construído para ser uma fortaleza entre os séculos 12 e 19? A primeira parte foi no reinado de Felipe Auguste (1180 -1223) e as demais foram sendo construídas conforme o desejo do monarca de vez.

Maria fica encantada com Tarif, mas procura não demonstrar. Diz-lhe que necessita chegar ao hotel dentro de uma hora. Tarif insiste, mas ela lhe dá e recebe um cartão de visitas, prometendo que responderá ao email, e despede-se.

Caminha tranquilamente acompanhando o Sena e saboreando o que vira e ouvira. Enquanto olha o rio repleto de nuvens acinzentadas, sente a primavera no seu coração. Resolve ir na creperie próxima do Teatro Madeleine. O som de uma gaita de fole, tocando L’hymne à l’amour de Piaf embala seu estado de espírito. Sente vontade de contar para alguém o que lhe acontecera, mas por telefone ou email não terá o mesmo encanto.

Apressa-se para assistir, a noite, um show de músicos venezianos, na Saint Chapelle, para completar o seu dia. Não estende a noite, para poder escrever. Parece que nascerá um romance, pelo menos, no papel, pois vê-se cavalgando naquela tempestade ao lado de Tarif.

Pela manhã dirige-se novamente ao Louvre. Não eram apenas as obras de arte que procurava, mas o significado do déjà vu que Tarif vivenciara. Senta-se num banco do vão central, sorrindo para a tempestade de areia à sua frente. Meia hora após, duas silhuetas masculinas se dirigem para o mesmo banco.

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